segunda-feira, 1 de junho de 2009

Problema seu

"Chegou a hora de parar e eu parei.
Parei até segunda ordem. Até que alguém saia dessa letargia insana e irrelevante e resolva me convencer, então, de que vale a pena.
Cansei de vias de mão única. Cansei de ser a minha a mão única. Tenho muito sono, pouco dinheiro e muitos sonhos a realizar. Tanta coisa pra fazer por mim e tanta gente pra fazer feliz. Não posso me dar ao luxo de estacionar na letargia delirante de gente que não tem amor nem por si.
Não amo sozinha, não amo quem não se ama.
De dentro das casas-problemas onde guardamos os traumas, as sensações e os medos, saem também as determinações de mudança. E para mudar, o mínimo que se tem que fazer é querer. Tenho já pesada bagagem de problemas, problemas meus. Por um momento quis ignorar, ou relevar isso, nem que fosse pra ajudar o tal do outro a também carregar seus problemas.

Xadrez, damas, pingue-pongue, tudo mostra que dupla é sempre melhor que solo. E eu quis carregar malas e problemas em dupla. Hoje já não sei.
Pode ser que um sorriso diferente, uma confissão na calada da noite, uma refeição compartilhada me façam logo mudar de ideia. Mas realmente não sei mais.

Quero que tudo se prove errado e amanhã não acredite mais em nenhuma palavra dessas. Mas ao fraco que se esconde dos próprios sentimentos, só posso dizer que "Você pra mim é problema seu." E tem mesmo que ser.
Problema seu
problema seu
problema seu
Problema só
Problema sem mim
Problema que me dói
Problema que quero por perto
Problema seu
Problema só seu
Problema nosso...

Trate de ser problema seu. Ou vem logo aqui pra gente se ajudar... Ninguém é problema apenas de si mesmo... Eu sei e tu também."

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Joana d'Água

De todos os lugares aos quais tinha viajado, Joana não se lembrava de nenhum que fosse tão emocionante quanto a viagem da noite anterior.
Ela caminhara por ruas molhadas de história. Lembranças, tragédias silêncios e água. Lágrimas, saliva, suor e todas as águas que haviam naquele lugar.
Joana viajou pra dentro de si. Conheceu o calor de seu corpo e o frio da mente. A inquietação de seu espírito nunca havia lhe dito tanto quanto na noite anterior.
Um sono cheio de sonhos. Bons, de saudade, de medo. Sonhos de água, água dela. Já não sabia acordar.
Na corrida nas ruas molhadas, saiu da carne quente de Joana, o suor frio da noite. E ela se viu só. Se fez lágrimas. Virou água. E escorreu pelas ruas dos seus sonhos, sendo a água-história que ela queria viver.


Escrito em 27/05/2009.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cúmplice.

Eu queria contar das coisas bonitas que têm me acontecido. Dos sorrisos que recebi, das lágrimas que dividiram comigo, do carinho, da sinceridade inocente e cúmplice. Ah, cumplicidade. Coisa bonita de ter e sentir, viu? Nós precisamos ser mais cúmplices, porque quando o somos, parece que o mundo todo vai embora e nada mais faz falta, porque o cúmplice tá ali.
O tal do cúmplice pode ser um amigo, um parente, um amor novo que chega, um amor velho que volta, mas ele precisa de uma coisa apenas: Sinceridade nos olhos, ainda que esses não enxerguem muito bem. E de tato.
Cumplicidade sem toque não existe.
Se o cúmplice for alguém desejado, amado, confunda, sempre que der, o seu corpo com o dele, pra no momento de não saber quem é quem, poder querer bem ao outro como se quer a si. Confundir é bem menos complexo e sexual do que muita gente pensa, é se entregar de verdade num abraço, manter as mãos unidas por momentos únicos, ainda que curtos. Ligar-se ao outro simplesmente pelo olhar.
E sentir que as lágrimas que saem daqui ou de lá, são todas suas.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O som de Ana.

Continuando a onda de coisas com personagens...

Aninha era uma menina que queria conhecer a vida em sua plenitude.
Queria entender dos mistérios dos homens, dos animais, do sagrado, de tudo. Enchia-se de vida por todo espaço que pudesse encontrar e nunca aprendeu a distinção humana entre o belo e o feio.
De certo modo, essas separações não faziam sentido para ela. Ela adorava assistir partos de animais, ver acidentes ou simplesmente frutas caindo do pé. Abria tudo que encontrava pelo caminho com o intuito mais belo e infantil de ver como as coisas são por dentro.
Ana não usava as palavras da mesma maneira que nós.
Quando perguntavam porque ela abria as coisas ela dizia :" Quero ver como é de verdade." A família dela nunca questionou, censurou nem tampouco incentivou os hábitos desbravadores da menina.
Ana não tinha muitos amigos. Sua vontade de entender tudo demais à sua maneira exótica sempre afastou as crianças da sua idade. Quando seus coleguinhas estavam descobrindo as diferenças de sexo entre garotos e garotas, ela estava abrindo animais para confirmar as lendas de cegonha.
Ana se enchia de vida. Engolia toda a vida que pudesse encontrar e depois vomitava. "Quero ver como é de verdade."
Ana foi crescendo e percebeu que saber demais sobre a vida tinha lhe custado viver dela muito pouco junto com as outras pessoas.
Ana resolver pesquisar outro setor de vida que não era fisiológico, ao menos a princípio.
Resolveu lidar com as pessoas da sua idade.
À essa altura ela já estava com 16 anos e era o protótipo perfeito da esquisitisse. Usava óculos, não andava na moda, era corcunda e não via motivos que a animassem pra conversar com seus contemporâneos.
A vida a que ela se acostumara era viva demais. Banalidades, embora fossem parte da vida, pareciam com pouco encanto para ela. Algo não digno de ser dissecado.
Mas aquele grupo, banal, por certo, Ana não conseguiu ignorar. Havia vida neles, uma vez que se locomoviam... E ela resolveu dissecar...

Nessa vida locomotiva que ela assistia, o barulho de "piuí" não era nada poético como as Marias-fumaça. Era um piuí tecnotrancedancehiphop era um chiado barulhento e mudo de essência. Era barulho.

Dissecou, dissecou, dissecou... Alguns ela até quis dissecar literalmente, mas Ana era esquisita e não doida.
E dissecando foi, até descobrir que o que faltava naqueles que a cercavam era som.
Um som que significasse, um som que musicasse, um som que dissesse algo que não fosse apenas sensível, mas inteligível. Um som que não falasse língua nenhuma, mas que falasse todas. Um som que fosse como ela era. Um som que inspirasse as pessoas a querer ver de verdade.

domingo, 17 de maio de 2009

A louca.

"O bom de se decepcionar com as pessoas, é que depois que você se livra delas, elas se mostram bem piores do que antes, dando espaço para aquele: "Ai, que alívo!" que todo mundo merece.
Não que eu ache bom que outra pessoa seja feita de trouxa no meu lugar, mas é que realmente, ter saído da merda a tempo de me recuperar, foi o melhor presente de Deus pra minha vida.

Quanto à querida que fica perdendo seu tempo e gastando energia super preocupada se eu quero seu namoradinho, vai a dica: Sai do meu pé, bonitinha... Se valoriza! Passa uma maquiagem legal, vai ler um livro, trabalhar, ou então passa mais tempo perto dele pra saber o que ele anda fazendo...

Beijos,
Mary Jane revoltada."



Adoro esses lapsos de antigamente, Resolvi postar.





Ai que saco... chega de romantiquezas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Mar nos olhos.

"This time we'll take it slow"... Coisa linda de John Legend... quem quiser pode até ouvir aqui na minha playlist...
Sermos pessoas ordinárias, naquele sentindo primeiro de ordinário: dentro da ordem, comuns, normais. Como é difícil! Reconhecer que é hora de ir devagar, calma nos passos, calma na mente, calma nas pessoas... Reconhecer que não sabemos que caminho tomar.
Face às dificuldades que sempre se apresentam, a melhor saída me parece ser nos reconhecermos na falta de detalhes que nos tornem pessoas muito melhores que as outras... Diante disso...



Maria sabia de tudo. Ela sempre sabia o que esperar das pessoas, das coisas da meteorologia, de tudo. Os dias da semana passavam sem graça, as aulas eram todas aquém da inteligência dela, os homens eram muito iguais e as mulheres também.
Maria não tinha nada de normal.
Talvez pelo seu ar arrogante e superior, muitos homens se sentissem atraídos por ela, mas ela não se atraía por nenhum. No máximo um romance antigo da infância, mas esses não contavam já que eram da época em que ela ainda não sabia de tudo.

Um dia, o menino mais apagadinho da escola, João, presenteou Maria com um embrulho pequeno e disse a ela: "Duvido que você conheça esse presente que eu tô te dando."
A menina ficou quase irritada com a ousadia do rapaz em discordar do poder dela de saber de todas as coisas. A ousadia do rapaz foi tanta, que ele ainda esperou, com um sorrisinho no rosto, para ver quais seriam os palpites da moça.

O simples fato de uma pessoa tão apagada se julgar à sua altura, fez com que Maria perdesse todas as suas habilidades de adivinhação, e ela percebeu que não sabia mais nada.
Meio sem graça, olhou João nos olhos e levantou levemente os ombros num gesto de desdém.
O rapaz abriu o embrulho tocando também as mãos de Maria, num gesto quase inocente de carinho e afronta.
Do embrulho cairam grãos de areia que se espalhavam entre os desdos de Maria e caíam ao chão, e o jovem falou: "São como você: muito pequenos e diferentes, podem aparecer pelo chão da cidade sem que ninguém dê importância, ou podem sumir de modo que ninguém os veja, e dar sustenção ao mar." A esse momento, os olhos de Maria já eram o próprio mar de João.

domingo, 10 de maio de 2009

Correndo Parada.

Parada era uma menina como qualquer outra. Adolescente, espinhas, amores platônicos, essas coisas de todas da sua idade... Mas ela carregava um peso: seu nome.
Parada não tomava atitudes para absolutamente nada.
Não demonstrava nada, não agilizava nada, não fazia nada que não fosse ficar assim... parada.
Perdeu amores, perdeu dinheiro, perdeu oportunidades de emprego, mas não perdeu a sua característica mais inerente.

Pelo menos até o dia em que não achou mais quem a locomovesse. Foi o fim. Parada sentiu fome, sentiu frio, setiu vontade de telefonar, de chorar, de gritar, mas não saía do lugar.
E foi aí que ela PERCEBEU que vivia PARADA.
Tentou sair do lugar, mas não sabia ao certo que musculos mexer para andar. Tentou se lembrar de todos os músculos que já tinha usado: lembrou da língua, lembrou das mãos, e sabia que deveria mexer as pernas, mas ela não sabia que comandos dar. Suas pernas só sabiam sentar e levantar.

Foi então que passou um menino, ele se chamava Correndo. E ele andava, corria, pulava, tudo com uma desenvoltura que deu até raiva em Parada.
Foi aí que ela teve uma idéia. Chamou Correndo e ele veio até ela. Pediu a ele que a segurasse pela mão para que corressem juntos (tudo isso sem dizer a Correndo que não sabia sair do lugar).

"Mas que ideia maluca" Correndo pensou, mas aceitou, afinal não parecia nada demais.
"Um, dois, três e já!" Corredo disparou segurando a mão de Parada, que desesperou-se por não saber se controlar.
"Solta o freio!!!" Correndo gritava o tempo todo sem parar de correr nenhum instante.
Parada fechou os olhos e começou a rezar e, antes que percebesse, estava correndo junto com Correndo.
E co-correram os dois, e Correndo já não sabia parar. Parada não queria parar e foram. Até não haver mais joelho, até não haver mais carreira, até não haver mais parada.
Até Parada morrer e Correndo parar.
Parada morreu de alegria e Correndo morreu de cansaço, e os dois morreram pra ver que era preciso mais do que se arrastarem pra ficarem juntos.
Um tinha que correr e o outro tinha que frear.
Os dois ao mesmo tempo, os dois em seu compasso, não sabiam.